A história da medicina, marcada por ciência, cuidado e humanidade, ganhou novos significados a partir da visita de um grupo de refugiados estrangeiros ao Museu da História da Medicina do Paraná, em Curitiba. Formado por quase 40 pessoas, entre cubanos e venezuelanos, o grupo vivenciou uma imersão cultural e científica em um dos espaços que preservam a memória da saúde no estado.
Instalado na histórica Santa Casa de Curitiba, o museu reúne milhares de peças, documentos e equipamentos que contam a evolução da medicina paranaense, proporcionando visitas guiadas que conectam passado e presente da prática de Saúde. Para os visitantes, muitos deles estudantes de cursos técnicos na área, a experiência foi também um reencontro com suas próprias trajetórias profissionais.
Vindos de realidades marcadas por desafios sociais, econômicos e políticos, os integrantes do grupo carregam histórias de superação. Alguns já possuem graduação em seus países de origem, enquanto outros estão em processo de reconstrução acadêmica no Brasil, buscando uma nova formação que possibilite inserção no mercado de trabalho.
Durante a visita, o conhecimento histórico dialogou diretamente com os sonhos desses estudantes, que enxergam na educação e na qualificação profissional caminhos concretos para reconstruir suas vidas em território brasileiro.
Kim durante a visita dos imigrantes nas alas históricas da Santa Casa que abriga o Museu
“A gente vê que o legado inciado lá de 1880 está sendo perpetuado até esse momento. Há 140 anos, quando surgiu a Santa Casa, os atendimentos eram aos poloneses, os alemães, os italianos. E hoje nós estamos em uma outra leva, com os venezuelanos, os cubanos e haitianos. É aquele famoso clichê: conhecer o passado para entender o presente e ter um bom futuro. É interessante que toda essa dinâmica para entender como foi a saúde (…) é essencial para qualquer profissional da área da saúde hoje, principalmente entender como a sociedade brasileira funciona e funcionou”, comentou Kim Vasco, historiador do museu.
A visita também foi acompanhada por uma professora responsável pelo grupo, que destacou o valor pedagógico da atividade, especialmente para alunos da área da saúde, que encontram no museu uma extensão prática e simbólica de seus estudos.

Professora Bruna Mariana com o grupo visitante
“Faz toda a diferença, especialmente porque eles chegam de realidades muito diferentes, de sistemas de saúde muito diferentes. Então começa a ficar cada vez mais importante que eles reconheçam quais são os acessos, quais são as possibilidades, não só de atuação, mas também de reconhecimento, de possibilidades de condução de vida”, garantiu Bruna Mariana, farmacêutica, mestre em Farmacologia, especialista em saúde da família, professora do grupo visitante do museu.
Entre os participantes, o sentimento predominante foi de inspiração e pertencimento. Ao conhecer instrumentos históricos, antigas farmácias e registros da evolução da medicina, muitos se reconheceram como parte de uma jornada maior, que ultrapassa fronteiras e idiomas.
“Aqui no Brasil, eu comecei como atendente na farmácia. Temos muitas oportunidades de trabalho aqui. A oportunidade de estudo são muitas. Gosto muito de Curitiba”, disse o imigrante Raico Canazana Godinez, cubano com menos de 2 anos de Brasil e já com graduação em Biomedicina em Cuba.
Outra visitante que tem formação em saúde e busca mais oportunidades no Brasil foi Maria Eugênia Fernandez, com já 5 anos no Brasil e estudante de atendimento em Farmácia:
“Gostei muito do que aprendi (…) da história da saúde do Brasil, precisamente aqui na Santa Casa. É interessante saber que aqui foi a primeira farmácia fundada. Na Venezuela é muito diferente, onde fiz um estudo de enfermeira auxiliar e estudei dois anos de medicina na Universidade de Venezuela em Carabobo, é totalmente diferente nosso sistema de saúde e acessos. Agora tive a oportunidade agora de estudar para atendente da farmácia e me vai permitir melhorar e a qualidade de vida que vou ter aqui no Brasil”, contou Maria Eugênia.
Mais do que uma visita cultural, o encontro no museu se transformou em um momento de integração, aprendizado e esperança. Em meio às histórias preservadas nas paredes e acervos, novas histórias seguem sendo escritas: agora por aqueles que escolheram o Brasil como lugar de recomeço e construção de futuro.
