No salão nobre da Santa Casa de Curitiba, na tarde desta terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, o debate foi além das paredes históricas da instituição. O encontro reuniu lideranças, colaboradores e representantes da comunidade para refletir sobre a Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano traz à tona uma pauta sensível e estrutural: o direito à moradia digna.
A escolha do tema encontrou ressonância imediata no contexto hospitalar. Falar de moradia é falar de saúde. É reconhecer que a recuperação de um paciente não termina na alta médica, mas continua no ambiente para onde ele retorna. Casa sem saneamento, sem ventilação adequada, sem espaço mínimo de convivência e repouso pode comprometer tratamentos, favorecer recaídas e perpetuar vulnerabilidades.
Entre as participações que marcaram o encontro, a professora PhD Eva Gislene Barbosa trouxe uma provocação que silenciou o auditório: “Como podemos ter 6 milhões de vulneráveis de moradia e isso não nos impactar? A gente que é cristão, sabemos que Ele veio morar conosco, mas deixamos de lado o direito de moradia digna para tantos outros irmãos”.
A fala conectou o debate social à dimensão espiritual e ética da Campanha da Fraternidade. Ao lembrar o fundamento cristão da encarnação — Deus que vem habitar entre os homens — Eva Gislene chamou os presentes à coerência prática da fé. O direito à moradia, ressaltou, não é apenas um dado estatístico ou uma pauta política: é uma questão de humanidade, solidariedade e responsabilidade coletiva.
Foi nesse cenário que a coordenadora de Qualidade, Ana Flávia Lins, lançou uma reflexão igualmente contundente: “Pensem nos pacientes no pós-leito”. A frase, simples e direta, ecoou como um chamado à responsabilidade ampliada. O cuidado hospitalar, por mais técnico e humanizado que seja, precisa dialogar com as condições sociais que aguardam o paciente do lado de fora.
A Campanha da Fraternidade 2026, ao debater o direito à moradia digna, convergiu de forma orgânica com os compromissos ESG (ambiental, social e governança) assumidos pela instituição. No pilar social, a discussão reforça o compromisso histórico da Santa Casa com a promoção da dignidade humana. No aspecto ambiental, a moradia adequada é também garantia de salubridade e equilíbrio sanitário. Já na governança, a reflexão aponta para a necessidade de políticas institucionais articuladas, transparentes e conectadas com a realidade da população atendida.
O encontro evidenciou que saúde e habitação são dimensões inseparáveis da mesma equação social. Em uma instituição que carrega tradição centenária de cuidado, as provocações lançadas no salão nobre ampliam horizontes: mais do que tratar doenças, é preciso compreender contextos, enfrentar desigualdades e assumir posicionamento ativo diante das fragilidades sociais.
Ao final, ficou claro que o debate não se encerrou ali. Ele segue como compromisso moral e institucional. Pensar no paciente no pós-leito e pensar nos milhões que não têm sequer um teto digno, é reconhecer que a alta hospitalar não significa alta da responsabilidade coletiva. É, antes, um chamado à fraternidade concreta, aquela que transforma reflexão em ação.