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A fundação da Santa Casa de Curitiba

Carlos Ravazzani*

No Paraná, a Irmandade da Santa Casa de Paranaguá, foi a primeira, originada da “Sociedade Patriótica dos Defençores da Liberdade e Independencia Nacional” e foi fundada em 1835, pelo Comendador Manoel Francisco Junior, seu primeiro provedor. Em 10 de abril de 1845, foi fundada a primeira loja maçônica em Curitiba, a “Fraternidade Curitybana”, sob n0 75 de registro da Ordem da Grande Oriente do Brasil.

O padre Antonio Teixeira Camello foi o pároco da Igreja Matriz de Curitiba, no período de 1823 a 1847. Morreu aos 63 anos de idade, em 24 de abril de 1847, e fez em seu testamento a doação, de um bom prédio, onde tinha sua residência, e que antes pertencera aos seus pais, ao lado da matriz, na então praça da Matriz (hoje praça Tiradentes), esquina da rua Fechada (hoje rua José Bonifácio). Onde era a casa do padre Camello atualmente está o edifício Nossa Senhora da Luz, ao lado da Catedral.

No testamento do Reverendo Antonio Teixeira Camello  consta a seguinte verba:

Deixo esta casa em que moro para servir de hospital de Caridade no caso se estabeleça no praso de deseceis annos, não tendo isto effeito será a mesma casa arrematada e seo producto repartido pelos pobres desta Freguesia a eleição de meo testamenteiro e no entanto os alugueis que renderem se distribuirá pelos presos pobres.”

O testamenteiro foi Joaquim José Pinto Bandeira, curitibano nascido no fim do século XVIII, que teve participação de destaque na “Conjura Separatista” de 1821. Foi suplente de Juiz Municipal de Curitiba, oficial da Ordem da Rosa, coronel comandante da Guarda Nacional de Curitiba, presidente da primeira Assembléia Legislativa Provincial do Paraná, e mesário da Santa Casa de Curitiba. Faleceu em Curitiba, no dia 10 de maio de 1858

As condições da cidade de Curitiba, nos idos de 1854, estão descritas no Relatório que o Chefe de Polícia, Dr. Antônio Manoel Fernandes Júnior, enviou ao Presidente da Província, Zacarias de Góes e Vasconcellos.

Existiam quatro Igrejas: a Matriz, sob a invocação de Nossa Senhora da Luz, em bom estado, e ainda não concluída; a do Rosário ou dos Pretos; a da Ordem Terceira e a de São Francisco de Paula, em construção. As sete Irmandades mantinham o espírito religioso, todas com seus compromissos aprovados: a do Santíssimo Sacramento, a de Nossa Senhora da Luz, a de São Miguel das Almas, a de São Francisco das Chagas dos Terceiros, a de Nossa Senhora do Rosário e a da Misericórdia. Existiam apenas duas escolas de primeiras letras para meninos e uma para meninas.

Curitiba era dividida em 27 quarteirões, contando com 5.819 habitantes, sendo que apenas 491 tinham idade acima de 40 anos. Tinha 308 casas, sendo 52 em construção; 38 lojas de negócios, 35 armazéns, 3 lojas de ourives, 5 de ferreiro, 2 de marceneiro, 1 de seleiro, 9 de sapateiro, 1 padaria, uma tipografia que imprimia o jornal oficial “Dezenove de Dezembro” e algumas diferentes casas, completavam o panorama citadino.

Em 9 de junho de 1852 a sociedade maçônica “Fraternidade Curitybana” se extinguiu e se converteu em sociedade filantrópica, a “Ïrmandade da Santa Casa de Misericordia da Cidade de Curityba”.

O primeiro Compromisso da “Irmandade da Santa Casa da Misericordia da Cidade de Curityba” aprovado em 9 de junho de 1852, dizia:

Art.1o: Fica convertida a sociedade Fraternidade Curitybana em sociedade philantropica, com a denominação de Irmandade de Misericordia da cidade de Curityba, a qual se empregará toda em actos de benificencia, mui principalmente no soccorro de indigentes, miseraveis e desvalidos.

Art.2º: A propriedade legada á irmandade, com os fundos da extincta sociedade, passarão a fazer parte dos fundos da nova irmandade. (…).

Durante muitos anos, as reuniões da mesa da Santa Casa de Curitiba, aconteceram na capela de São Francisco de Paula, (as ruínas do alto de São Francisco), que era administrada pela Irmandade. O primeiro provedor da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, foi o Comendador Manoel Gonçalves de Moraes Roseira. O Comendador Roseira foi deputado provincial na primeira Assembléia da Província do Paraná.

Somente em 1855, a Santa Casa de Curitiba teria o seu primeiro hospital, fruto de doação de um prédio, de outra loja maçônica, a “Candura Coritibana”, localizado na rua Direita também chamada de rua dos Alemães (hoje rua 13 de maio). Seu primeiro médico foi o Dr. José Cândido da Silva Murici, e foi o único, até a sua morte em 1879. O Dr. Murici foi o idealizador e responsável pela construção do atual Hospital de Caridade, inaugurado em 22 de maio de 1880, com a presença do imperador D. Pedro II e da imperatriz Thereza Christina Maria.

* Carlos Ravazzani é médico da Santa Casa de Curitiba e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.

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